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Há 40 anos Trieste, na Itália, sedia um verdadeiro festival de vela e prazer que ano após ano atrai cada vez mais velejadores, barcos e o público em geral. É a Barcolana, a maior competição de vela de oceano do mundo em número de participantes. E o RegattaNews estava lá. 
- Ciao bello, sorriu a bela recepcionista do Urban Design Hotel, um super charmoso hotelzinho na parte velha de Trieste, ao lado da Piazza Dell’ Unità, o centro “cosmológico” da cidade e palco das infindáveis comemorações do segundo final de semana de outubro, que faz com que a cidade de 200 mil habitantes, no noroeste italiano, receba igual ou maior número de visitantes. 
Trieste, que foi colônia romana, parte do império bizantino e mais tarde o principal porto do império austro-húngaro, além de abrigar o único campo de concentração e extermínio nazista fora da Alemanha e da Polônia, ao longo dos séculos se acostumou com a invasão de estrangeiros e a com a visão de suas ruas estreitas sitiadas por multidões enfurecidas. Mas o que acontece por ali desde 1969 é algo sem paralelo em qualquer relato histórico e fruto de outro tipo de paixão, igualmente intensa como a guerra, o amor pelo mar e pela celebração.
Desde que a Societá Velica di Barcola e Grignano resolveu criar uma regata no golfo da cidade, a beira do mar Adriático, a cada ano acorrem mais e mais velejadores de toda a parte do mundo em busca de uma regata cheia de charme e tradição, mas também de um verdadeiro festival de Vela, música e gastronomia que dura todo o final de semana.

Este jornalista, que vinha da Espanha, tomou o caminho mais curto para chegar lá voando, uma conexão em Munique, Alemanha, e um pouso suave no aeroporto da cidade, que fica a 35 km do centro e praticamente em outra região geográfica. Há também a opção de ir por Veneza (160 km de carro), por Treviso (também por volta de 160 km) ou por Udine (70 km). Nada muito simples.
A chegada por cima dos montes que circundam a urbe lá em baixo é belíssima. E uma paradinha na vila de Prosecco, para tomar um espumante local é algo recomendável por razões óbvias. Ainda na estradinha estreita e recurvada, que por vezes lembra a descida da serra do Mar rumo ao litoral norte de São Paulo, há uma infinidade de mirantes que proporcionam vistas de tirar o fôlego. Câmera em punho e sorriso no rosto.
Já no nível do mar, na estreita faixa de terra plana antes das colinas onipresentes, o que se vê é uma cidade de arquitetura clássica italiana com edifícios em estilo neoclássico convivendo com construções bem mais antigas em estilo medieval. Pequenas ruas coalhadas de cantinas, cafés e bares completam o charme local e ajudam a povoar o imaginário romântico de todos os que visitam qualquer cidade italiana. Apesar da inegável influência croata e eslovena no estilo triestino.

Já plenamente acomodado e com a indefectível taça de vinho na mão era hora de ir ver a festa que bombava. Uma verdadeira multidão de mais de 100 mil pessoas se aglomerava na - agora pequena -, praça principal da cidade. E no palco, imenso, atrações musicais de todos os tipos se revezavam para delírio da platéia. Uma concentração absurda de motos de todos os tipos e tamanhos só rivalizava com o “paliteiro” de mastros de todas as alturas no porto em frente à balada. Sem falar na incrível vila da regata com centenas de barraquinhas de fornecedores, equipamentos, comidinhas, artesanato, lojas e coisas afins.
Claro que o visual velejador – docksiders, camisas-polo, calças cáqui -, era o preponderante, mas no meio da turba havia desde verdadeiras drag-queens montadas para não-sei-o-que, até jovens neo-punks e hordas de motoqueiros easy-riders de cabelão comprido e tatuagens incontáveis. Todos em plena harmonia e aproveitando o friozinho de outono para caprichar nos comes e bebes. Os carabinieri controlavam as ruas fechadas ao trânsito e não presenciei uma cena sequer de confusão violência. Coisa rara hoje em dia.
No dia seguinte, nem parecia que tudo aquilo havia acontecido por ali. As ruas já limpas e vazias, as milhares de tripulações se dirigindo ao porto e um saudável ar de domingo esportivo na cara de todos. Pela generosidade de meu amigo português Patrick de Barros, fui convidado a me juntar a ele, ao seu tático, a lenda dos mares, Russell Coutts e a sua tripulação de estrelas no RC44 “Black Pearl/Banco Espírito Santo” que havia acabado de vencer a etapa disputada ali do circuito mundial desta nova classe que reúne a nata da vela internacional.
Na enorme linha de largada, 1.912 barcos se aglomeravam no ventinho fraco de 4 nós que, nem de longe, lembrava a última edição da prova corrida sob a influência do famoso e fortíssimo vento Bora. Desde pequenos veleiros de 16 pés (desde que monocascos e cabinados) até super máquinas de 100 pés e tripulações profissionais, todos queriam o melhor lugar na largada.
E por obra divina, tudo saiu muito bem e não houve nenhum incidente. Por sorte nós largamos pela esquerda, o lugar para onde o vento rondou, e isso nos deu uma vantagem enorme que nos permitiu montar a primeira bóia do circuito triangular de 12 milhas em segundo lugar geral. Atrás apenas do tri-campeão local, o máxi esloveno de 80 pés, “Maxi Jena”. Logo depois fomos ultrapassados por outro tri-campeão da regata, o 100 pés “Alfa Romeo” e, no final, já na linha de chegada, fomos superados pelo America’s Cup sul-africano “Shosholoza”, de 80 pés.
Não é preciso dizer que no nosso pequeno 44 pés – de alma de carbono e tripulação estelar, é verdade! -, a vitória na classe e o 4º lugar geral foi comemorado muito. Até uma champanhe apareceu para o brinde final. Mais tarde, nas cantinas e restaurantes, por toda a noite, só se ouviam as gargalhadas e as infinitas histórias dos milhares de velejadores que compartilharam naquele domingo as generosas águas do golfo de Trieste. Inesquecível. E no ano que vem tem mais. E como diria aquela antiga propaganda, eu recomendo!
Por Murillo Novaes |